Foto: Isto É
CÁRCERE Igor, ao ser preso, em São Paulo: em 2012,
"Parece que é filme, não parece real. Agora acabou tudo, não é verdade?" O desabafo foi feito pelo ex-promotor de Justiça Igor Ferreira da Silva, 42 anos, a uma investigadora numa ampla sala da 5ª Seccional, na zona leste da capital paulista. A policial teve vontade de responder que a tarde daquela segunda-feira 19 não era o fim. Era, na verdade, o início do acerto de contas dele com a Justiça.
Mas se manteve calada. Em 2001, Igor foi condenado à perda do cargo de promotor e a 16 anos e quatro meses de prisão pelo assassinato da mulher, Patrícia Aggio Longo, em 1998, e pelo aborto do bebê que ela carregava no ventre. Passou oito anos e meio foragido, na maior parte do tempo, usando óculos escuros e boné para esconder a calvície. Circulou pelo interior de São Paulo e pelo Sul do País. Policiais acreditam que ele também tenha passado pela Argentina e pelo Chile.
A imagem daquele homem com dentes estragados, atordoado e franzino - 50 quilos distribuídos em 1,68m -, sentado diante de um delegado, sepultou o que Igor fora no passado. Durante uma década, ele trabalhou para botar bandidos atrás das grades. Primeiro como delegado, depois como promotor. No Ministério Público, se especializou justamente em acusar homicidas. Igor permaneceu cerca de duas horas na 5ª Seccional, sempre cordato e falando baixo. Assustou-se quando a cadeira de rodinhas em que estava se reclinou demais. Aceitou um copo d'água, dispensou o café. Contou que não suportava mais a vida de fugitivo. "Ele disse que aquilo era um carma", afirma o delegado Nelson Guimarães. "E que tinha esperança de provar sua inocência. Mas que, se isso não acontecesse, cumpriria a pena se fosse a vontade de Deus."
A prisão de Igor causou mal-estar na Secretaria da Segurança Pública. Na versão da polícia, o ex-promotor foi capturado graças a uma denúncia anônima. "Ele não foi preso, se apresentou. Quem telefonou para a polícia e avisou o local onde ele estaria foi um dos irmãos", diz o advogado Henrique Ferreira da Silva Filho, pai de Igor. Silva Filho afirma que o aconselhava a se entregar havia muito tempo. "Em menos de três anos, ele terá direito de pedir o semiaberto (regime em que os presos dormem na cadeia, mas saem durante o dia para trabalhar). Se ele tivesse feito isso antes, já poderia estar reconstruindo a vida. A questão da culpa, questionaríamos depois." Nessa temporada de fuga, o crime de aborto não consentido prescreveu. A pena de 14 anos pela morte de Patrícia seria somada apenas aos três anos da condenação por porte ilegal de armas.
A defesa de Igor insiste que ele é inocente e que a polícia, por motivos não revelados, ignorou outras possíveis linhas de investigação.
"O processo tem uma coleção de provas extremamente contundentes", afirma a procuradora de Justiça Valderez Abbud, que atuou no caso. Segundo ela, da lista de provas consta que a família de Igor teria tentado pagar para que um presidiário assumisse o assassinato de Patrícia.
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