Publicada em 20 de Fevereiro de 2011 às 18h45 Versão para impressão
As forças de segurança da Líbia abriram fogo contra os manifestantes na segunda cidade do país, Benghazi, no domingo, disse uma testemunha, depois de muitas mortes em um dos dias de protestos mais sangrentos que assolam o mundo árabe.
Moradores disseram que dezenas, talvez centenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas da cidade para enterrar os muitos mortos das últimas 24 horas.
Os manifestantes, inspirados pela agitação na vizinha Tunísia e no Egito, exigem o fim da ditadura de Muamar Gaddafi, que já dura 42 anos. Suas forças de segurança responderam com violência. As comunicações estão sendo controladas, e o acesso de jornalistas internacionais a Benghazi não é permitido.
O grupo Human Rights Watch disse que 84 pessoas foram mortas na cidade no sábado, elevando o número de vítimas fatais nos confrontos que ocorrem principalmente no leste do país para 173 em quatro dias de distúrbios.
"Houve um massacre aqui ontem à noite", disse por telefone no domingo um morador que não quis se identificar. Mais tarde no domingo, um dos principais líderes tribais, que pediu anonimato, disse que as forças de segurança, que estavam confinadas, deixaram os alojamentos nos quartéis e atiravam nos manifestantes nas ruas, como "uma perseguição de gato e rato".
Os confrontos aconteceram em uma estrada que leva a um cemitério, onde milhares de pessoas foram enterrar seus mortos.
"A situação é muito tensa e vários incêndios irromperam no quartel general do comitê revolucionário e em outros edifícios", ele disse.
Informações fragmentadas indicam que as ruas de Benghazi, cerca de 1.000 km ao leste da capital, Trípoli, estão agora sob o controle dos manifestantes antigoverno, sofrendo ataques periódicos das forças de segurança, que atiram de dentro do seu quartel
murado.
Um morador disse que cerca de 100 mil manifestantes dirigiram-se ao cemitério "para enterrar dezenas de mártires".
Outra testemunha disse que milhares de pessoas realizaram rituais de orações em frente aos 60 corpos expostos na cidade. Mulheres e crianças estavam entre a multidão de centenas de milhares de manifestantes que foram até a orla marítima mediterrânea e à área ao redor do porto, ele disse.
Um médico de um hospital de Benghazi disse que as vítimas sofreram ferimentos graves causados por armas de longo alcance.
Também em Benghazi, manifestantes "atacaram uma guarnição" da polícia e "estão sendo atacados por franco-atiradores", acrescentou al-Mughrabi, sem dar mais detalhes.
"Estamos pedindo à Cruz Vermelha que envie hospitais de campanha. Não podemos aguentar mais", afirmou o advogado;
Em entrevista à rede Al-Jazeera, um morador alertou que Benghazi está se transformando em palco de "massacres escondidos". "Parece uma zona de guerra entre manifestantes e as forças de segurança", denunciou Fathi Terbeel, um dos organizadores dos protestos.
"Nossos números mostram que mais de 200 pessoas já foram assassinadas. Que Deus tenha piedade delas", acrescentou.
O banho de sangue em Benghazi começou no sábado, quando grupos que se dirigiam para os funerais das vítimas da véspera atacou um quartel no caminho do cemitério, explicou à France Presse Ramadan Briki, editor de um jornal local.
As pessoas jogaram coquetéis Molotov, e as tropas responderam com tiros, "deixando pelo menos 12 mortos e muitos outros feridos", contou Briki, do Quryna, citando fontes das forças de segurança.
Em outra parte do país, um alto funcionário líbio revelou que as forças de segurança frustraram uma tentativa de sabotagem em poços de petróleo do campo de Sarir. Seis líbios foram presos no episódio, no qual "a quadrilha recebeu suas armas de fora da Líbia e recebeu instruções pela internet", segundo a mesma fonte.
COMUNICAÇÃO
O governo não divulgou nenhuma cifra de vítimas nem fez comentários oficiais sobre a violência.
Conseguir detalhes concretos sobre os protestos na Líbia vem sendo difícil porque os jornalistas não podem trabalhar livremente no país. Informações sobre a revolta chegam por entrevistas pelo telefone, junto com vídeos e mensagens postados na internet, e também por meio de ativistas da oposição exilados do país.
A norte-americana Arbor Networks relatou mais um corte no serviço de internet da Líbia por volta de meia-noite deste domingo (horário local). A companhia afirma que o tráfego de dados no país, que cessou por volta das 2h da manhã de sábado, foi retomado em níveis mais baixos diversas horas mais tarde, apenas para ser cortado de novo nesta noite.
A população afirma ainda que não consegue mais fazer ligações telefônicas de suas linhas fixas.
Nenhum comentário até o momento. Seja o primeiro.